Ele estremecia enquanto jogava as tintas numa tela quase branca... Era óbvio demais que aquela tela em branco precisava ser preenchida, ficar sozinho não era mais uma opção. As cores escorriam desordenadas pelo painel, desvirginando aquele branco puro, casto, inocente, chato e entediante.
Ele lera na noite anterior, que chamavam aquilo de sublimação. Ele sentiu nesse momento que precisava sublimar, ou cortar os pulsos, se enforcar no telhado ou dar um tiro na boca seriam as formas mais fáceis de se conviver consigo mesmo.
Comprou telas, tintas e resolveu que pincéis não dariam conta da ferocidade das sensações que ele precisava colocar naquela brancura toda. Ele queria escurecer as cores, ele queria maltratar a tela, ele queria destruir. Não poderia haver destruição com as coisas ordenadas em linhas perfeitas. Ele não queria agradar aos olhos dos outros, ele queria agredir.
Não poderia haver agressão se ele fosse calmo. Não haveria sublimação. Ele não colocaria toda a raiva e desejo em pinceladas que expressariam duas maçãs num jarro velho com a sombra da tarde. Ele queria caos.
Era assim que ele estava.
Dias a fio. Madrugada após madrugada. Caos. Desordem. Distúrbio. Era assim que ele se sentia. Como quando ele andava nos ônibus e bebês queriam sorrir pra ele, e tudo o que ele podia oferecer era um olhar que intimidava o bebê. Quando o calor, e um medo irracional de parar de existir tomava conta dele dentro do metrô e os estranhos olhavam para ele com uma expressão estranha, por que ele apertava as barras com tanta força que seus dedos ficavam brancos.
Doía, e era inexplicável. Era afinal, mas não valeria a pena o esforço. Ele sabia que seria sempre um depressivo autodestrutivo com dificuldades em vínculos emocionais. Os psiquiatras deviam ter razão.
Ele nunca havia aprendido a ser feliz. E o ser feliz a que ele se referia, era um ser feliz comum. Como era estar feliz apenas? Sem dano e mania?
Como seria acordar de manhã bem-humorado, não tomar café e fumar um cigarro e sim tomar um suco e ir andar na praia? Como era se apaixonar e não estragar tudo apenas porque queria que o outro fosse feliz, nesse estado de furor em que ele estava...?
Como seria se sentir infeliz sem ter um choro fácil vindo quando se anda numa rua comum? Como seria ser infeliz sem ter vontade de dormir pra sempre? Como seria ser infeliz sem olhar prédios altos com um ardor estranho?
Enquanto se questionava sem racionalizar... ou racionalizando enquanto se questionava, ele ia jogando as tintas, para que elas criassem um aspecto hostil. Elas deveriam incomodar, elas deveriam ser feias, assim como uma dor e um medo que não podiam ser expressos.
Ele esperava que assim fosse...
É sempre uma dor tão grande. Mas tem sido mais. As palavras não saem mais como lindas flores se despedaçando numa primavera que não conhecemos em lugares como esse. São sempre, agora, partos forçados e muito doloridos. Com ou sem sangue, não importa, dói muito agora.
A poesia é antiga, a rima não existe mais, as linhas se perderam em algum momento que não se pode achar.
O que se pode fazer agora é esperar.
Que a dor passe, por que é sempre impossível negar a luz a uma palavra que pede por olhos, que não os meus.
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